Mesmo antes de pensar em ter filhos eu já tinha uma certeza: Seria uma cesárea, numa segunda feira. Sou matemática de formação, metódica e muito organizada. A rainha das planilhas, rs. Mas desde que comecei a me interessar pelo assunto, estimulada por uma amiga que ata na área, descobri o quanto me faltava de informação, o quanto as evidências científicas mais completas gritavam contra tudo o que eu acreditava, como as escolhas de hoje influenciam o futuro. Ao mesmo tempo em que me assustei, me viciei pelo assunto.

Digo que o divisor de águas que evidenciou minha falta de informação foi o filme O Renascimento do Parto. Acho que esse filme deveria ser visto por todos e até exibido nas escolas. Afinal, nascimento é um evento que compete a todos nós. Daí pra frente percebi que peguei um caminho sem volta. Para quem assistiu ao filme Matrix a melhor analogia é: Depois que você toma a pílula vermelha, já era.

A realidade obstétrica no Brasil é chocante. A OMS preconiza como 15% a taxa aceitável de cesáreas, enquanto o Brasil lidera o ranking mundial com 56%. Algumas maternidades possuem uma taxa criminosa de 98%!É uma epidemia com sérias consequências de saúde pública.

A pesquisa da Fiocruz, Nascer no Brasil, aponta que 70% das gestantes manifestam desejo por um parto normal no início da gravidez. Porém, por muitos motivos (assistam ao filme!), no setor suplementar, nem 15% conseguem. Muitas que conseguem se traumatizam, visto a violência com que esses partos normais são feitos. Eu pude contar com uma equipe particular maravilhosa, mas sei que sou exceção. Para quem não tem esse privilégio, a luta para conseguir parir de forma digna é insana. Qual a opção dessa mulher se ela tem de um lado uma cesárea sem indicação médica, que ela não deseja, de outro um parto normal cheio de violência? O sistema com todas as suas engrenagens engole e massacra as gestantes.

A experiência das mulheres que puderam parir de forma respeitosa, com protagonismo, com uma assistência baseada nas melhores evidências científicas, é inesquecivelmente maravilhosa. Assim que peguei meu filho nos braços imediatamente após nascer, só consegui pensar que aquilo foi, sem dúvida, a coisa mais incrível que fiz na vida. Tenho paixão por esse assunto e é gratificante quando percebo que pude ajudar de alguma forma uma mulher que deseja passar por essa experiência. Mas nessa cultura tão cesarista que vivemos, infelizmente não basta somente querer. É preciso peitar esse sistema pra valer e esse empoderamento é uma porta que se abre de dentro pra fora. O que deveria ser naturalmente aprendido precisa vir de um “comichão” e inquietude que nascem dentro da mulher.

Em países onde a assistência ao parto é referência, como Inglaterra e Holanda, apenas cerca de 1% das mulheres optam por uma cesárea com data e hora marcadas. E essas mulheres têm e devem ter seu direto de escolha respeitados, por que isso também é empoderamento. Quando se tem uma sociedade com acesso as melhores informações e um sistema que funciona em favor do binômio mãe-bebê, esse apenas 1% acontece naturalmente.

A participação das mulheres de forma ativa é fundamental nessa mudança. O Brasil começou a dar passos positivos, alguns por estradas meio tortas, mas começou. E as mulheres que não aceitam mais esse modelo de assistência foram responsáveis por isso. Portanto, informe-se, bata de frente, não engula nada sem questionar. Empodere-se. E quando chegar sua vez, desejo uma boa hora para você e uma linda lua de leite.

Referências sobre o tema:

Filme O Renascimento do Parto (Disponível no NET Now)
Filme O Renascimento do Parto 2 – Em breve nos cinemas
Documentário Microbirth – http://microbirth.com/brazil/ (Alugue online por 5 libras)
Debate com o Dr Braulio Zorzella: https://www.youtube.com/watch?v=hotZAy_mDLM

Author

Doula e Consultora em Aleitamento Materno

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